Participei de uma live com os amigos da CEPABrasil, em que defendi a importância de aproveitarmos uma oportunidade histórica: o surgimento de grupos espíritas mais progressistas, abertos, menos dogmáticos e menos presos à ortodoxia. Por que ficar apenas criticando o movimento espírita hegemônico, marcado por conservadorismo e, muitas vezes, por reações contrárias ao avanço social? A sociologia da religião mostra que tradições espirituais nunca são blocos rígidos, mas espaços de disputa entre visões ortodoxas e forças de renovação. O espiritismo brasileiro, nesse sentido, é terreno fértil para a construção de uma contra-hegemonia: redes de centros espíritas em vários estados, coletivos horizontais e até comunidades online de estudo e pesquisa já esboçam novas formas de organização, diferentes do modelo atual que é centralizador, moralista e omisso diante das graves questões do nosso país.
Inspirados em Kardec, podemos sonhar com um espiritismo progressista que se reconstrói em chave democrática, plural, defensor dos direitos humanos e capaz de dialogar com os dilemas atuais. Como lembra o sociólogo Peter Berger, toda tradição espiritual passa por processos de pluralização. A força do progressismo espírita está justamente em assumir esse pluralismo como riqueza (laicos, cristãos, universalistas etc.), e não como ameaça. Mas movimentos contra-hegemônicos só se firmam quando criam novas formas de institucionalidade — espaços de acolhimento, pedagogia crítica e engajamento social. É isso que começa a nascer no espiritismo brasileiro: um espiritismo renovado, que não renega suas raízes kardequianas, mas as atualiza em direção a um projeto emancipador, dialogando com as ciências e ajudando a construir uma sociedade mais democrática, fraterna e igualitária.
Não se trata apenas de resistir ao conservadorismo das velhas lideranças, mas de esperançar, como dizia Paulo Freire: acreditar que o espiritismo pode contribuir para o progresso da humanidade, como sonhava Kardec. O movimento espírita progressista já faz diferença — e tudo indica que sua voz coletiva será cada vez mais ouvida no cenário espiritualista e cultural do Brasil.